
Sou casada… mas meu corpo é seu
Era o verão de 2018, o calor em Amã cortava a respiração.
Hadeel, estudante universitária jordaniana, segundo ano de Ciências da Computação, 16 anos e meio.
Nour, estudante de Engenharia, quarto ano, 30 anos, trabalhava meio período em uma loja de computadores para pagar as mensalidades.
A primeira vez que se comunicaram foi no grupo de WhatsApp da disciplina.
Hadeel escreveu:
«Alguém sabe resolver a questão 7 da prova intermediária? 😩»
Nour respondeu depois de 12 minutos:
«Manda a questão, eu vejo.».
Ela enviou a foto da questão.
Ele respondeu com a solução completa + explicação simples.
Ela agradeceu.
Ele respondeu: «De boa, qualquer hora».
A partir daí começaram as conversas diárias.
Primeira semana: só perguntas de estudo.
Segunda semana: «Como foi a prova?» e «Onde você está estudando?».
Terceira semana: ela começou a mandar memes, e ele respondia com piadas secas.
Quarta semana: ela mandou uma foto do rosto usando um moletom cinza, cabelo preso, olhos cansados.
Escreveu embaixo: «Cansada dos estudos 😴».
Nour respondeu com uma foto dele: rapaz alto, barba rala, óculos, fundo do quarto bagunçado.
Escreveu: «Eu também».
A partir daí começou a atração.
Hadeel passou a abrir o chat assim que acordava.
Nour passou a esperar a mensagem «bom dia» dela antes de ir trabalhar.
Depois de dois meses, as conversas ficaram mais longas que as de estudo.
Ela falava sobre os pais um pouco conservadores.
Ele falava sobre a pressão da faculdade e do trabalho.
Ela começou a mandar áudios com a voz suave, e ele ouvia mais de uma vez.
Na noite antes da prova final, às 2:17 da manhã, ela escreveu:
«Tenho medo de dormir… meu sonho fica ruim».
Ele respondeu:
«Me conta. Eu estou acordado».
Ela contou.
Ele ouviu.
Depois escreveu:
«Se eu estivesse ao seu lado, te abraçaria até você dormir».
Hadeel ficou em silêncio por dois minutos.
Depois respondeu:
«Quem dera».
A partir desse momento, o tom mudou.
Ela passou a mandar «senti sua falta» no meio do dia.
Ele respondia: «E eu mais».
Depois da prova final, ela mandou pela primeira vez uma foto do corpo (ainda de véu, mas a camiseta justa).
Escreveu embaixo:
«Me sinto burra… mas quero ver sua reação».
Nour respondeu depois de 40 segundos:
«Não é burra… muito bonita.
Mas se eu te visse sem o véu…».
Ela riu no áudio.
Mandou áudio:
«Quer ver?».
Ele:
«Sim».
Dias depois, as primeiras nudes.
Foto sem rosto, corpo inteiro, lingerie preta.
Nour ficou olhando por meia hora.
Respondeu com foto dele sem camisa, músculos à mostra, e escreveu:
«É assim que está a situação?».
Ela:
«É assim».
E começou o sexo por câmera.
A primeira vez foi à 1 da manhã, ela no quarto com os pais dormindo, ele no apartamento.
Ela ficou com medo, tremeu, mas continuou.
Ele estava calmo, falava com ela tranquilamente:
«Olha para a câmera… mostra o rosto um pouco… assim…».
Depois virou hábito.
Duas ou três vezes por semana.
Ela passou a contar tudo: medo dos pais, desejo, sensação de culpa, e o amor por ele.
O primeiro encontro real foi em um café no Shmeisani.
Ela vestindo abaya preta, cabelo coberto.
Ele chegou meia hora antes.
Quando a viu, levantou.
Ela sorriu timidamente.
Sentaram.
A conversa foi entrecortada nos primeiros 20 minutos.
Depois ela passou a olhar nos olhos dele por mais tempo.
Ele tocou a mão dela embaixo da mesa.
Ela não a retirou.
Segundo encontro: restaurante no Sétimo Círculo.
Comeram, riram, depois foram caminhar no parque.
Pararam atrás de uma árvore.
Ele a beijou pela primeira vez.
Beijo longo, lento.
Ela tremeu.
Ele sussurrou no ouvido dela:
«Senti falta do seu corpo… não só da voz».
Ela respondeu com voz quebrada:
«Eu também».
Duas semanas depois… ela desapareceu.
Não respondeu às mensagens.
Não abriu o WhatsApp.
Nour tentou ligar, não conseguiu.
Esperou uma semana… um mês… três meses.
Em um dia de inverno de 2019, às 11:48 da noite, chegou uma mensagem:
«Nour…
Eu casei.
O nome dele é Abd.
Desculpa».





